O poder do não: caso Jennifer
O assunto mais falado nas redes sociais e também fora delas na semana passada foi o caso da "moça da janela do avião", como ficou conhecida Jennifer Castro. Provavelmente você tem uma mínima ideia do que aconteceu, mas por garantia vou deixar o link de uma reportagem sobre o assunto.
O desrespeito aos limites não acontece apenas em relação a pessoas estranhas ao nosso convívio. Parece até que quanto mais amizade e intimidade existe entre as pessoas mais fácil é ultrapassar os limites e achar tudo muito natural. Bem, natural até que a coisa vire e sejam seus próprios limites sendo desrespeitados.
A história já deu voltas e reviravoltas e não é minha intenção trazer o caso de novo à tona. O que acho interessante de ser analisado é a polêmica que um 'não!' causou. O apoio à Jennifer foi massivo: uma verdadeira comoção virtual. Do dia para a noite, ela ganhou 1,4 milhões de seguidores e os números continuam a crescer. Como tudo nas redes sociais acontece muito rápido, logo chamou atenção de grandes anunciantes. Pois é, ela já está fazendo publicidade para a Magalu e outras empresas. Mas por que tanta gente se identificou com a Jennifer?
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Cansaço
Eu me arrisco a dizer que com um simples "não", dado por Jennifer com tranquilidade, porém com firmeza, foi visto como um ato heroico. Passou a ser necessário ter coragem para dizer não. As pessoas esperam de verdade que suas vontades sejam atendidas, independente se isso envolve ultrapassar os limites e direitos alheios.
As pessoas estão exaustadas de determinados comportamentos que passaram a ser normalizados. As mídias só contribuem para que isso fique pior. Se você é uma pessoa que se opõe, que rema contra a maré, vira automaticamente uma bruxa malvada e sem empatia.
Entre os comportamentos que estão causando exaustão nas pessoas, eu identifico os seguintes:
- Falta de habilidade para lidar com recusas e frustrações
A frustração constante pode ser prejudicial à saúde mental? Claro Acredito que pessoas que nunca aprenderam a dizer ou a ouvir e não ensinaram como receber um 'não' só podem transmitir o sentimento de frustração. Elas vão reproduzir as frustrações pelas quais passaram.
- Terceirização da responsabilidade
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- Culpabilização do outro
Esse comportamento pode ter suas raízes na infância a partir de uma educação na qual os responsáveis sempre agem rápido para tirar a responsabilidade da criança. O exemplo mais comum é com as notas baixas. Antes mesmo de averiguar a razão real da nota baixa, é comum ver os responsáveis culpabilizando a escola e a professora. A criança vai aprendendo a não assumir o papel ativo que ela tem nos acontecimentos.
- Desrespeito aos limites alheios
O desrespeito aos limites não acontece apenas em relação a pessoas estranhas ao nosso convívio. Parece até que quanto mais amizade e intimidade existe entre as pessoas mais fácil é ultrapassar os limites e achar tudo muito natural. Bem, natural até que a coisa vire e sejam seus próprios limites sendo desrespeitados.
O desrespeito aos limites de outra pessoa pode se concretizar de várias formas: não aceitar os tempos de pausa e descanso dela; forçá-la a ir junto a lugares que ela não se sente bem; ridicularizar suas escolhas alimentares; não se importar com o incômodo que está causando nela. Quando a pessoa que se sente invadida verbaliza seus incômodos, ela é rotulada de chata, ranzinza, antissocial e, claro, sem empatia. Experimente retribuir com as mesmas atitudes e se surpreenda como a história muda totalmente! É um palco para o vitimismo e o drama. Bem, o ditado já diz: "Pimenta nos olhos dos outros é refresco!"
O poder libertador do 'não'
A facilidade de dizer 'não', depende bastante da cultura na qual as pessoas estão inseridas. Já tive a oportunidade de viver e de me relacionar com outras culturas. Através da comparação, percebo como é complicado e doloroso dizer 'não' no Brasil. É normal e até esperado que a pessoa de uma justificativa plausível para validar o seu 'não'. Uma justificativa do tipo "não posso neste dia" abre espaço, sem o menor constrangimento, para que rebatam com a pergunta: "Mas não pode por quê?". Não vou entrar aqui na falta de transparência que às vezes existe em determinados relacionamentos, colocando em questão a veracidade da recusa; talvez seja um tema para um próximo artigo. Mas vamos lá, ainda que não seja muito sincera a justificativa dada e que talvez ela sirva só para não soar muito grosseiro: e daí? Não seria ainda assim o limite da pessoa? E se ela realmente não foi sincera, isso já não diz bastante sobre essa pessoa?
Dizer 'não' está intimamente relacionado à capacidade de estabelecer limites e priorizar o que é importante na vida. É desenvolver a habilidade de cuidar do próprio bem-estar, de ter uma vida mais equilibrada e de evitar a sobrecarga e o estresse.
O fenômeno Jennifer
Cada vez que dizemos 'sim' para outras pessoas e situações, estamos dizendo 'não‘ para nós mesmos. Ao longo dos anos, isso deixa um gosto amargo de nunca ter feito o que realmente desejava. Deixa o peso de sonhos e planos não realizados porque você sempre disse 'sim' para os outros, tornando você quase um gênio da lâmpada, mas não porque tem poder de realizar qualquer desejo e sim porque você só realiza o desejo dos outros.
Não querer decepcionar o outro, não querer impactar a amizade, não querer perder o cliente tirano e principalmente, não querer perder o título de "pessoa bacana" causam perturbação em quem que pensa em dizer 'não'. Porque se tem uma coisa certa é ser chamado de egoísta após dar um 'não'. Quem quer ser rotulado de egoísta? Quem banca ser exposto como sem empatia nas redes?
Jennifer bancou! Ela se manteve não só no seu direito de permanecer no assento que ela previamente havia marcado, mas também de manter o seu 'não', priorizando suas escolhas. São escolhas certas ou erradas? Não estou aqui para julgar, mas no mundo atual inundado de pessoas inseguras, ansiosas e sobrecarregadas por tiranias alheias, Jennifer conquistou muitas pessoas pela sua coragem de se escolher.
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